Amor Ao Saber ou à Mentira?
O homem ama trivialidades, banalidades e o
senso comum
Segundo Aristóteles, somos uma espécie dotada com a sede do
saber. «Todos os homens têm, por natureza, a paixão do
conhecimento», considerou ele na sua Metafísica.
Só que também podemos ver a nossa curiosidade e ânsia de
conhecimento, noutra perspectiva, bem menos exaltante, bem
menos passional. O saber de que gostamos salda-se muitas
vezes num saber prático e convencional. É o saber que
alimenta a nossa capacidade de sobrevivência, e de
relacionamento com os outros e com a vida. E é um saber que
muitas vezes se confunde com o mito e o sonho.
Frequentemente andamos demasiado embrenhados com as nossas
ideias, ilusões e fantasias. Ou com os nossos filhos e
cônjuges, ou os afazeres profissionais, sem tempo ou vontade
para espreitar pelos buracos que dão acesso ao outro lado da
vida e a outros patamares de saber.
Para agravar as coisas, quando porventura olhamos através
desses buracos, para o outro lado das nossas vidas e da
realidade, o que vemos não nos agrada. Percebemos realidades
incómodas - fraquezas, limitações, dores, ameaças, guerras,
miséria…- ou realidades demasiado complexas e complicadas. E
fugimos.
O mais
das vezes preferimos o sonho e o mito - o mito de que somos
fortes, de que somos retratos e filhos de Deus (em vez de
descendentes de símios), de que estamos no centro do
universo, de que o nosso país é o melhor do mundo. Ou o mito
de que os homens têm amor ao saber...
Citações
Conhecimento e mito
O homem acredita sobretudo no que ele quer que seja verdade.
Rejeita coisas difíceis por incapacidade de reflexão; coisas
sensatas, porque vão contra os seus sonhos; as coisas mais
profundas da natureza, por superstição; a luz da experiência,
por arrogância e orgulho; e aceita as coisas em princípio
inaceitáveis, por respeito à opinião corrente.
Francis
Bacon, 1561-1626, filósofo e político inglês, Novum Organon
Na religião e na política as convicções são quase sempre obtidas
em segunda-mão, e sem análise, de autoridades que não examinaram
elas próprias as questões, que as tiraram em segunda mão de
outros, cujas opiniões também não merecem o mínimo crédito.
Mark Twain,
1835-1919, escritor norte americano, Autobiografia
Os homens estão sempre prontos a considerar como verdadeiro
aquilo que desejam que o seja.
Júlio César,
100-44 a.C., imperador romano, De Bello Gallico
Todos os homens ficam sujeitos a errar; e muitos homens, em
muitos momentos, por paixão ou interesse, são tentados a fazê-lo.
John Locke, 1632-1704, filósofo inglês, Essay concerning the
Human Understanding
As falsas
opiniões parecem-se com a falsa moeda; inicialmente são cunhadas
pelos grandes traficantes, mas depois são distribuídas por gente
honesta, que perpetua inconscientemente o crime.
Joseph de Maistre, 1753-1821, escritor e filósofo francês, Les
Soirées de Saint-Pétersbourg
A mentira para connosco mesmo revela a nossa aptidão para o
desdobramento, visto que o Eu mentiroso consegue convencer-se da
sua própria sinceridade.
E. Morin,
sociólogo e filósofo francês, Método V
Amor e Verdade? Ver também:
A imprensa, as
notícias e a falta de amor à verdade, humildade e tolerância
Os humanos amam mitos e sonhos
Mentir em nome do amor e da
sabedoria