Mentir em Nome do Amor e da Sabedoria
Kant,
o grande filósofo alemão do século XVIII, era um adepto
indefectível da razão. A razão dignifica-nos, eleva-nos,
transforma-nos em seres superiores. Nesse âmbito, Kant
concebeu os chamados «imperativos categóricos», do tipo «Não
mintas, em ocasião alguma», a que deveríamos obedecer
piamente.
Kant não admitia excepções aos seus imperativos, fixados por
via racional. Só assim eles eram categóricos.
Mas
será que amar a verdade, é nunca atraiçoá-la, é nunca mentir?
Será que a verdade deve ser encarada como um postulado
científico, inquebrável?
Kant achava que sim. Em nome de quê? Em nome da dignidade
humana, em nome da razão. Para ele o imperativo categórico
da verdade era inquestionável, ainda que isso beneficiasse
quem não merecesse e prejudicasse os fracos e pobres, e
causasse sofrimento.
Mas será mesmo assim? Será que não é legítimo mentir a
criminosos e a ditadores que perseguem e atormentam
inocentes? Será que devemos revelar ao moribundo a verdade
da sua situação?
A resposta humanista tem que ser não. A verdade que causa
sofrimento desnecessário ao moribundo ou a pessoas
violentadas, é crueldade. Não mentir ao assassino e ao
terrorista que sequestra, é colaboracionismo cruel e tolo.
Os «imperativos categóricos» podem e devem ser quebrados, em
determinadas situações. A verdade não pode estar sempre
acima do amor que devemos aos outros.
Há muitos casos em que a verdade tem que ser defendida a
tudo o custo, ainda que isso nos cause lágrimas, desgosto e
até sofrimento. Não podemos, por exemplo, negar a verdade
científica para conforto próprio. Não podemos teimar em
ver-nos como seres especiais, criados à imagem de Deus, em
vez de seres descendentes de símios.
Mas essa não é uma regra absoluta. Também há ocasiões e
situações em que a mentira é legítima, em que certas
verdades factuais podem e devem ser omitidas em nome do amor.
Citações
Verdade e mentira
Mentir a um polícia nazi que nos pergunta se escondemos um
resistente em nossa casa, não é mentir, é dizer a verdade.
V. Jankélévitch, 1903-1985, ensaista francês, Traité dés
vertus
A
verdade é, frequentemente, uma arma de agressão terrível. É
possível mentir e até matar com a verdade.
Alfred
Adler, 1870-1937, psiquiatra austríaco, The problem of
neurosis
Malditos sejam aqueles que colocam abaixo do amor a verdade
criminosa da informação! Malditos sejam os brutos que falam
sempre a verdade! Malditos sejam aqueles que nunca mentiram!
V. Jankélévitch, 1903-1985, ensaista francês, Traité des
vertus
Alguém
que diz a uma pessoa que está a morrer que ele vai morrer,
mente: primeiro, literalmente, porque ele, muito
simplesmente não sabe o que só Deus pode saber, e depois
porque ninguém tem o direito de dizer a outro que ele vai
morrer.
V. Jankélévitch, 1903-1985, ensaista francês, Traité des
vertus
As
pessoas pobres e abandonadas não devem ser sujeitas ao
sofrimento. Isso é mais importante do que tudo o mais,
incluindo a verdade.
V. Jankélévitch, 1903-1985, ensaista francês, Traité des
vertus
É
melhor mentir do que torturar, melhor mentir que aterrorizar.
A verdade não pode tomar o lugar de tudo.
A.
Compte-Sponville, filósofo francês, Pequeno Tratado das
Grandes Virtudes
Nem tudo deve ser dito, já que tal seria loucura; mas tudo
aquilo que se diz, deve corresponder ao que pensamos; de outra
forma seria desonesto.
Montaigne, 1533-1592, Filósofo francês, Essays
Não podemos legitimamente mentir a nós mesmos, porque fazê-lo é
valorizarmo-nos mais do que à verdade, valorizar mais o nosso
conforto e a nossa boa consciência do que o nosso espírito.
A. Comte-Sponville, Filósofo Francês, Pequeno Tratado sobre as
Grandes Virtudes
É o homem que torna grande a verdade.
Confúcio, 551-479 a. C., filósofo chinês, Analectos.
São precisos dois para dizer a verdade - um para falar, outro
para ouvir.
Henry D. Thoreau, 1817-1862, ensaísta americano, A Week on the
Concord and Merrimack Rivers
Amor e Verdade? Ver também:
O homem ama trivialidades,
mentiras e o senso comum
A imprensa, as notícias e
a falta de amor à verdade, humildade e tolerância
Os humanos amam mitos e sonhos