A Imprensa, as Notícias e a Falta de Valores e de Amor à
Verdade
Amar a verdade não é, em muitos casos, uma mera concordância
do que se diz ou do que se escreve com os factos. E um
exemplo maior disso mesmo é o moderno jornalismo.
Muito
do que se diz ou se escreve no jornalismo pode ser
verdadeiro, no sentido estrito do termo. Mas aquilo que é
tema jornalístico dominante – os crimes domésticos, as
agressões, as manifestações nacionalistas, o cor-de-rosa, o
escandaloso – revela uma estranha inversão de prioridades e
muitas omissões. Esquece-se e relega-se para segundo plano o
que é fundamental, o que tem a ver com a sabedoria, com a
humildade, com a tolerância, com valores éticos. Ou seja,
por outras palavras: há falta de amor à verdade, no sentido
mais pleno do termo.
Quando confrontados com estas críticas, muitos jornalistas -
e as empresas que os sustentam - limpam as mãos e apontam o
dedo acusador ao público. Não se pode sobreviver e crescer
sem audiências e tiragens. Os meios de comunicação oferecem
aquilo que o público quer. Se está mal, culpe-se o público.
No jornalismo, como noutros aspectos da vida, não se seguem
princípios de amor (neste caso de amor à verdade). Não há
lugar a moralismos.
Pois. Há uma base factual nestes argumentos. Existem nas
nossas sociedades maiorias da população largamente
analfabetas a muitos níveis, sem curiosidade intelectual,
sem capacidade crítica. Mas se o jornalismo e a cultura
alimentam esses grupos e essas audiências, se respondem aos
instintos e reflexos mais primários do homem, se não se
introduz um sentido ético na informação e na produção
cultural, se não se cultiva a sabedoria e a elevação moral,
o que é que nós podemos esperar das nossas sociedades?
Como é
que podemos lamentar a violência, o crime, o acefalismo, os
nacionalismos, as guerras, a mediocridade? As sociedades que
temos não deixam de ser o reflexo de círculos viciosos, em
que as leis de mercado, aliadas ao lado inferior da natureza
humana e aos nossos instintos mais animais e básicos, criam
padrões informativos e culturais ao nível do queque Wilmott
Lewis classificou como um jornalismo centrados nos «gatos da
senhora Hastings»:
Penso por bem recordar que quando escrevemos para os jornais,
estamos a escrever para um velha senhora de Hastings, que
tem dois gatos de que ela se orgulha profundamente.
Willmott Lewis, 1877-1950, jornalista, In Time of Trouble,
de Claud Cockburn
Citações
O 4º
Poder: A Imprensa vista numa perspectiva satírica
Há leis
para proteger a liberdade de imprensa, mas nenhuma que consiga
proteger o povo da imprensa.
Mark Twain, 1835-1910, escritor americano, License of the Press
Quando um cão morde um homem, isso não é notícia, já que
acontece demasiadas vezes. Mas se um homem morde o cão, isso é
notícia.
John B. Bogart, 1848-1921, jornalista americano, citado em The
Story of the Sun, de F. M. O’Brien
O jornalismo consiste largamente em dizer ‘Lorde Jones morreu’ a
pessoas que nunca souberam que Lorde Jones estava vivo.
G. K.
Chesterton, 1847-1936, escritor e jornalista inglês, Wisdom of
Father Brown
O
jornalismo envolve gente que não sabe escrever, entrevistando
gente que não sabe falar para gente que não sabe ler.
Frank
Zappa, 1940-93, actor norte-americano, em Loose Talk, de Linda
Botts
A imprensa é notoriamente incapaz de distinguir entre um
acidente de bicicleta e o colapso de uma civilização.
Atribuído a
Bernand Shaw, 1856-1960, escritor irlandês
Os hospitais são corruptos. Os juízes são corruptos. Toda a
gente do mundo é corrupta. (...) Mas os nossos jornais são um
grande monumento ao idealismo.
Christian Williams, em Newark Star Ledger, 9 April 1990, The
Best Notable Quotables of 1990, The Linda Ellerbee Awards
Amor e Verdade? Ver também:
O homem ama trivialidades,
mentiras e o senso comum
Os humanos amam mitos e sonhos
Mentir em nome do amor e da
sabedoria