Revolta, Ressentimento, Amor e Gratidão
Dentro
de nós – pronto a revelar-se – vive a revolta e o
ressentimento. Eles são a resposta à dor, aos inimigos, à
crueldade da vida, às afrontas, à morte, às desilusões.
E isso pode cegar-nos. A revolta e a descrença não são bons
companheiros, e conduzem-nos à ingratidão. Um coração cheio
de fel, que não esquece as ofensas e as injustiças, é
incapaz de fruir as alegrias que a vida contém, ou de
reconhecer a mão amiga, um sorriso, um acto de justiça.
A ingratidão – associada à revolta e descrença - é um poço
sem fundo, que envenena definitivamente a vida. É uma forma
de loucura, nas palavras de Epicuro: «A vida dos loucos é
vazia de gratidão, e cheia de ansiedade».
E é, por outro lado, uma expressão de falta de amor: é-se
ingrato e revoltado, porque não amamos suficientemente os
outros, a vida, projectos; ou porque não temos ou não
valorizamos em grau suficiente as amizades ou o amor dos
outros…
Como se diz, no Eclesiastes, só pela «medicina do amor nós
nos tornamos felizes» (Eclesiastes). Só o amor faz nascer em
nós a gratidão, só ele permite estabelecer laços de harmonia
com a vida, e eliminar ressentimentos e fazer esquecer a
crueldade do mundo.
Filósofos como Epicuro, realçaram o papel do amor – sobre a
forma de amizade -, no combate que temos que manter contra
as nossas tendências para o ressentimento e para a
ingratidão. E realçaram também a necessidade de uma serena
aceitação das agruras da vida, no quadro de uma filosofia
muito antiga mas muito actual. Na falta de formas de amor
que espontaneamente preencham a nossa vida e nos torne
gratos, essa filosofia pode ser essencial.
Vale a pena reflectir nas palavras de um Epicuro (ou de um
Séneca), a este propósito. Elas têm mais de dois mil anos,
mas são intemporais:
Há que sarar as nossas feridas por via de uma atitude serena
face ao passado e pelo reconhecimento de que é impossível
desfazer o que está feito.
Epicuro, 341-270 a.C., filósofo grego, The Extant Remains
Infeliz será sempre quem assim se vê a si mesmo.
Tudo depende de como pensamos. (…) A infelicidade é directamente
proporcional ao nosso convencimento de tal.
Que
interessa a tua vida e o teu lugar no mundo, se à partida o
detestas?
Porque coleccionas sofrimentos passados e te sentes infeliz hoje
porque ontem o foste? (…) Quando os problemas acabam, manda a
vida que fiquemos satisfeitos.
Os
animais selvagens fogem aos perigos do momento, para logo, uma
vez acabados, não mais se preocupam com eles. Nós, ao contrário,
somos atormentados pelo que passou e pelo que está para vir.
As
nossas faculdades ferem-nos, já que a memória das coisas nos
traz a agonia do medo, e a nossa capacidade de antecipar traz
desgraças de outra forma inexistentes. Ninguém é incapaz de
confinar a sua infelicidade ao presente.
Séneca, filósofo e político romano, Letters to Lucilius
Amor e valores? Ver também:
Humildade e amor: a recusa da
vaidade, do orgulho e do ódio
Amor, perdão e justiça faça a
erros e faltas
Orgulho e amor patriótico e racial
Tolerância, crimes e guerras
Amor, ódio, vontade e razão