Quantas
Heloísas e Abelardos Existem nos Amores Banais e nos Divorciados
de Hoje?
Os grandes
amores românticos podem ser uma criação dos nossos sonhos
individuais. Mas são também uma criação das nossas sociedades,
como o mostra o caso do amor de Abelardo e Heloísa.
Teria esse
amor sido possível nos nossos dias?
É possível defender que sim. E até defender que teria sido um
amor maior, mais verdadeiro: libertos dos constrangimentos da
sociedade medieval em que viveram, Abelardo e Heloísa poderiam
ter dado ainda mais um ao outro, sem caírem na separação, na
vida religiosa.
Mas podemos ver as coisas num ângulo diferente. Teriam Abelardo
e Heloísa, nos nossos dias, sem a repressão e as convenções do
século XII francês, sentido a amado nos moldes em que o fizeram?
Ou teriam escrito as cartas que os imortalizaram?
Obviamente que não. O amor de Heloísa e Abelardo não é um amor
do século XXI. Mais: podemos inclusivamente adoptar uma
argumentação cínica e defender que, hoje, o amor de Heloísa e
Abelardo terminaria muito provavelmente em divórcio ou, pelo
menos, num amor banal. Foi a sociedade medieval e o seu clima
religioso e repressivo que criaram o amor de Abelardo e Heloísa.
Em certo sentido todos somos Abelardos e Heloísas. Nos milhões
de casais cujo amor se banalizou e se transformou em divórcio,
há milhares de Abelardos e Heloísas, cujo amor poderia ser
heróico e grandioso tivessem eles nascido em castelos franceses,
rodeados de mosteiros em os homens discutiam a lógica
aristotélica e a filosofia escolástica que tornaram famoso
Abelardo, e tivessem elas poderosos tios prontos a defender a
honra de sobrinhas, mandando esbirros «cortar aquelas partes do
corpo com as quais» Abelardo fez aquilo «que foi a causa de
infelicidade».
Citações
O
Amor na Literatura: Abelardo e Heloísa
Heloísa, 1098-1164, Religiosa francesa, Lettres d’ Abelard et
Heloise
Peter Abelard, 1079 – 1142, Lógico francês, Historia
Calamitatum, Macmillan
Abelardo:
Sob o
pretexto do estudo, passámos horas de felicidade amorosa, e a
aprendizagem deu-nos a secreta oportunidade que a nossa paixão
perseguia. O nosso discurso era mais o do amor do que o dos
livros que jaziam abertos ante nós; os nossos beijos
ultrapassaram largamente as nossas palavras razoáveis. As nossas
mãos procuravam menos os livros do que os peitos um do outro, e
o amor mantinha muito mais os nossos olhos juntos do que a lição
que emanava das páginas do texto.
De modo a não alimentarmos a suspeição, havia efectivamente
interrupções e suspiros, mas era o amor que estava na sua base,
e não a zanga; eles não eram uma manifestação de uma ternura que
ultrapassava a doçura do bálsamo mais flagrante.
O que se seguiu? Nenhum grau do progresso do amor foi deixado de
lado pela nossa paixão, e se o amor podia imaginar qualquer
maravilha ainda desconhecida, nós lançamo-nos na sua descoberta.
E a nossa inexperiência de tais delícias tornaram-nos ainda mais
ardentes na perseguição de uma sede inextinguível.
Tal desmesurada paixão absorvia-me mais e mais, e levava-me a
devotar cada vez menos tempo à filosofia e ao trabalho da escola.
De facto, ir à escola e lá ficar, tornou-se algo profundamente
detestável. E o trabalho, do mesmo modo, tornou-se um fardo, uma
vez que as minhas noites eram vigílias de amor, e os meus dias
vigílias de estudo. As minhas aulas tornaram-se profundamente
descuidadas e sem chama.
E não demorou muito a que Heloísa não ficasse grávida, e disso
me desse notícia na maior das excitações, ao mesmo tempo que
inquiria o que fazer. E foi nessa sequência que numa noite de
ausência do seu tio realizámos o plano por nós acordado, e a
levei sem demora e secretamente da sua casa para o meu próprio
condado, onde Heloísa permaneceu com a minha irmã até ao
nascimento do nosso filho, a quem ela chamou Astrolábio.
Quando o seu tio e os seus próximos souberam de tal, convenceram-se
de que eu a todos traíra e que me quisera ver livre de Heloísa,
forçando-a a uma vida religiosa de freira. E furiosos traçaram
um plano contra mim, e uma noite, enquanto eu insuspeitamente
descansava, entraram nos meus aposentos, com a ajuda de um dos
meus criados a quem subornaram, e praticaram em mim a mais cruel
das vinganças, cortando aquelas partes do meu corpo com eu
realizara aquilo que se tornou a causa de todas as minhas mágoas.
Peter Abelard, Historia Calamitatum, Macmillan, translated by
Henry A. Bellows
Heloísa:
Deus sabe
que nunca suspirei por nada a não ser por ti; quis-te
simplesmente a ti, nada que fosse teu.
O meu
coração não estava em mim mas contigo, e agora, mais ainda, se
não está contigo, não está em lado nenhum.
Amor romântico? Ver também:
O amor é ilusão e loucura
Beleza e amor
O amor é um jogo
Grandes e pequenos amores
Amor e fidelidade
O amor romântico na
literatura: Platão, Dante, Shakespeare