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O Amor Fraternal de São Lucas

 


A ti que me escutas, eu digo: ama os teus inimigos, e pratica o bem em relação aos que te odeiam; abençoa os que te amaldiçoam, e reza pelos que te caluniam. A quem te bater numa das faces, oferece-lhe também a outra; e a quem te levar a capa, não impeças que te leve também a túnica. Dá a todo aquele que te pede, e não reclames nada de quem se apoderar do que é teu. O que queres que os outros te façam, faz-lhes tu também.

 

Se amas os que te amam, que agradecimento mereces? Os pecadores também amam aqueles que os amam. Se fazes bem aos que te fazem bem, que agradecimento mereces? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestas de quem esperas receber, que agradecimento mereces? Também os pecadores emprestam aos pecadores, a fim de receberem outro tanto. Tu porém ama os teus inimigos, faz o bem e empresta sem nada esperar em troca.
São Lucas, 6.27
 

Decididamente, São Lucas pede-nos muito. Demasiado.

Amar quem nos odeia, quando manifestamente somos incapazes de amar os pobres que connosco se cruzam, ou os desafortunados que se acumulam nos cantos da sociedade? Amar quem nos odeia, quando as nossas relações quotidianas são caracterizadas pela indiferença para com os desconhecidos por quem passamos? Permitir que nos roubem sem reagir, e emprestar como quem dá?

Decididamente, não nos comportamos nem podemos amar nos termos propostos por São Lucas. Os nossos amores têm enquadramentos bem mais restritas. «Por que é que eu amo tanto os meus filhos, e tão pouco os outros?», pergunta Comte-Sponville, radiografando os nossos corações de uma forma bem mais realista que São Lucas. E o próprio Sponville responde: «Porque os meus filhos são meus, e ao amá-los estou a amar-me a mim mesmo».

O egoísmo está de facto no fundo dos nossos corações - mesmo no nosso amor. E não o podemos eliminar. Podemos eventualmente, em muitas ocasiões, simpatizar com os outros, solidarizarmo-nos, sermos generosos. Mas não tenhamos ilusões: não somos os santos que São Lucas pede para sermos.

Somos filhos da crueldade do mundo. Numa perspectiva evolucionista, somos descendentes de seres que lutaram e mataram para sobreviver. Seres que praticaram por vezes a generosidade, mas que sobretudo praticaram a indiferença, e a agressividade. Dos nossos pais herdámos indubitavelmente o amor num quadro familiar. Não herdámos – porque neles não existia - amor universal, nos termos em que São Lucas o coloca.

Mas será que não é possível elevarmo-nos eticamente, e estender a nossa simpatia e o nosso amor para além dos círculos estreitos que os nossos instintos e a natureza animal apontam?

Certamente. Mas sejamos também realistas: não nos termos de São Lucas.

E não será que os apelos ao amor universal são sempre bem-vindos, e que os apelos de São Lucas são uma metáfora poética e exaltante?

Certamente. Só que nesse caso também se incorre no inevitável risco de a metáfora ser ignorada, e equiparada a palavras ocas e a simples retórica.



Citações
O Amor Como Fraternidade: Dalai Lama

Dalai Lama, líder político e espiritual tibetano, Voices from the Heart 

 

No Tibete, costumamos dizer que muitas doenças podem ser curadas com a medicina do amor e da compaixão.

 


Nenhum objecto material, por muito belo ou valioso que seja, nos faz sentir amados.



O amor e a compaixão foram afastados de muitas esferas da vida social. Ficaram confinados à família e à casa, e são normalmente considerados como impraticáveis em público, ou como uma ingenuidade. O que é trágico.



Quando sentimos amor e simpatia pelos outros, isso faz não apenas com que os outros se sintam amados e estimados, como também ajuda a desenvolver sentimentos internos de paz e felicidade.



A necessidade de amor faz parte da nossa existência humana, e resulta da profunda rede de dependência que nos une aos outros.


Apesar das nossas extraordinárias qualidades, na prática falta-nos o sentido de responsabilidade para com os nossos irmãos humanos. Em certo sentido, sinto que somos mais pobres que as abelhas.



Citações
Amor Fraternal

Vejo Deus em todo o ser humano. Quando lavo as feridas de um leproso, sinto que estou a cuidar do próprio Deus.
Mother Teresa, 1910-1997, Missionária católica, Guardian 6/9/97


Embora seja possível dar sem amar, é praticamente impossível amar sem dar.

V. Jankélévicht, filósofo francês, Traité des vertus

 

Qualquer um pode estar enamorado, mas nem todos são capazes de amar.


Por que é que eu amo tanto os meus filhos, e tão pouco os outros? Porque os meus filhos são meus, e ao amá-los eu amo-me a mim mesmo.

 

Temos maus corações, porque os nossos corações são egoístas; é de generosidade, mais do que a lucidez, que carecemos.


Só necessitamos de ser generosos quando não amamos suficientemente, e essa é a razão por que necessitamos quase sempre de ser generosos.

A. Compte-Sponville, filósofo francês, Pequeno Tratado das Grandes Virtudes

 

Amor fraternal? Ver também:
Poema a Alzheimer
Resolver os nossos males por via do amor
Não podemos comandar o amor
Maquiavel, a natureza do homem, a política e o amor
O amor e o sofrimento: uma explicação para a falta de amor
Actos com e sem amor



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