A Paranóia de Hitler, o
Amor, os Palestinianos e os Judeus
Escreveu há quase mil anos Ana Comemna, uma princesa «nascida
na púrpura» e nos círculos do poder de Bizâncio:
O curso irresistível e incessante do tempo arrasta na sua
onda todas as coisas criadas e lança-as nas profundezas da
obscuridade, indiferente a que elas sejam dignas de menção
ou, pelo contrário, sejam notáveis e importantes.
E de
facto assim é. A voragem do tempo engole amores e engole
vidas, engole sonhos e pesadelos, o bom e o mau. «Todos os
instantes de tempo são pontos perdidos na eternidade. Tudo é
insignificante, facilmente mutável, tudo se apaga»,
considerou também Marco Aurélio, a propósito.
E no
entanto, noutra perspectiva, há coisas que ficam e perduram,
teimosamente. Nem tudo é insignificante e menor. A obra de
Ana Comemna – escrita por amor ao pai, e para contrariar a
lavagem do tempo - ficou e vai perdurar como fonte preciosa
de informação sobre uma época, como ela pretendia.
Do mesmo modo, as sementes do bem e do mal, do amor e do
ódio presentes em nós, nas nossas sociedades, não deixaram
de ser plantadas no passado. Vêem de há milhares de anos,
não se perderam, não foram engolidas pelo «curso
irresistível e incessante do tempo».
Veja-se por exemplo o caso de Hitler. Ele vive hoje nos
ódios israelitas e palestinianos. Sem Hitler e as suas
perseguições ao povo judeu, este não teria afluído em massa
ao Médio Oriente, e não teriam havido os choques que houve,
e tudo seria diferente, e Bin Laden e os terrorismos de
inspiração islâmica não existiriam hoje. O cancro aberto por
Hitler no corpo da humanidade continua vivo, presente nas
bombas que dilaceram o Médio Oriente, presente nos ódios dos
dois lados.
Mas
não são só as obras dos poderosos que perduram. Não é só a
obra e os actos dos Hitleres e dos «profetas, califas,
sultões e dos grandes homens da religião e do governo», para
citar uma fonte hindu. «A gente insignificante, os velhacos,
os incapazes de origem desconhecida e natureza vil, sem
linhagem ou de baixa linhagem, os vadios e os ociosos de
bazar», para citar a mesma fonte, também deixam as suas
sementes. Deixam-nas nas estradas construídas, nas árvores
plantadas, ou também no amor e no ódio que partilharam ao
longo dos dias das suas vidas.
As sementes do amor (ou da paranóia) que todos transmitimos
no nosso quotidiano, não deixam de se reproduzir e
repercutir naqueles com quem nos relacionamos e, por essa
via, nas gerações futuras, num processo em cadeia. São
autênticos genes vivendo e reproduzindo-se nos cérebros e
comportamentos humanos, e nas nossas acções.
Citações
Concepções da História
A
História é o conhecimento dos anais e das tradições dos
profetas, califas, sultões e dos grandes homens da religião
e do governo.
Concepções hindus-muçulmanas, citadas por D. Boorstin, em
Os descobridores
A gente insignificante, os velhacos, os incapazes de origem
desconhecida e natureza vil, sem linhagem ou de baixa
linhagem, os vadios e os ociosos de bazar, todos eles, não
têm o mínimo lugar na História.
Concepções hindus-muçulmanas, citadas por D. Boorstin, em
Os descobridores
Que é que tu vês, no passado negro e no abismo do tempo?
William
Shakespeare, 1564-1616, poeta e dramaturgo inglês, A
Tempestade
O curso irresistível e incessante do tempo arrasta na sua
onda todas as coisas criadas e lança-as nas profundezas da
obscuridade, indiferente a que elas sejam dignas de menção
ou, pelo contrário, sejam notáveis e importantes. (…) No
entanto, a memória da história forma um baluarte muito forte
contra a corrente do tempo e, até certo ponto, detém a sua
vaga irresistível.
Ana
Comnena, 1083-1150, princesa bizantina e historiadora,
The Alexiad of the princess Ann Comnena
Não há memória que sempre dure sempre.
Bíblia,
Eclesiastes
Amor e História? Ver também:
Caminhos da História: Acaso,
Necessidade e Amor
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os Judeus
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